JORNAL TRIBUNA DE LEME ENTREVISTA O PREFEITO CLAUDEMIR BORGES A RESPEITO DAS AÇÕES PROMOVIDAS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO EM RAZÃO DE SUPOSTAS IRREGULARIDADES EM SUA GESTÃO
O Jornal Tribuna de Leme entrevistou o prefeito de Leme, Claudemir Borges, para dar a oportunidade de o prefeito dar a sua versão em relação às denúncias movidas pelo Ministério Público a respeito de possíveis atos de improbidade administrativa ocorrida na Secretaria Municipal de Educação durante a gestão do atual prefeito de Leme.
Confira a entrevista
JORNAL: Prefeito, o senhor acusa o Jornal Tribuna de Leme de veicular matérias mentirosas a respeito da sua administração. As matérias são sempre baseadas nas ações propostas pelo Ministério Público ou de acordo com as decisões e despachos da Justiça. Mesmo assim, o senhor continua a defender a tese de que nossas matérias são mentirosas?
CLAUDEMIR: Olá, Sandra, toda equipe do Jornal Tribuna de Leme, e também a população lemense que acompanha essa entrevista. Quero começar dizendo que jamais afirmei que o Jornal em si seja mentiroso. O que tenho pontuado, e continuo a defender, é que algumas matérias relacionadas à minha gestão acabam sendo apresentado com certo viés, o que pode induzir o leitor a interpretações parciais ou até equivocadas. Como prefeito, tenho total respeito pela imprensa, por todos os meios de comunicação da nossa cidade: rádios, jornais, portais e veículos digitais. Reconheço o papel essencial que a imprensa cumpre numa democracia. No entanto, também acredito que o jornalismo deve ouvir todas as partes envolvidas. Em grande parte das vezes em que meu nome ou decisões do governo aparecem no jornal, infelizmente, não sou procurado para me manifestar. E isso é algo que considero fundamental: o direito de resposta, o direito ao contraditório. Vocês do Jornal Tribuna, tem meu contato direto, conhecem também a minha equipe. Um simples pedido de posicionamento da minha parte poderia enriquecer as matérias e oferecer ao leitor uma visão mais equilibrada dos fatos. O que defendo, portanto, é o diálogo e a responsabilidade com a informação. Estou sempre aberto ao debate, à crítica construtiva, sugestões etc.
JORNAL: Prefeito, como o senhor justifica o gasto de quase R$ 2,6 milhões em livros em braile e libras para apenas 11 alunos com deficiência visual ou auditiva na rede municipal? Isso pode ser considerado desperdício de dinheiro público?
CLAUDEMIR: Essa é uma ótima oportunidade para esclarecer um equívoco que tem sido repetido. O investimento de aproximadamente R$ 2,6 milhões não foi feito apenas para atender 11 alunos com deficiência visual ou auditiva. Os livros adquiridos foram destinados aos mais de 11 mil alunos da rede municipal de ensino, abrangendo toda a comunidade escolar, e não apenas os que possuem algum tipo de deficiência. A proposta dos materiais é muito mais ampla: eles tratam da inclusão como um todo com conteúdo acessíveis em braile, libras e também sobre outras deficiências e realidades. A ideia não é apenas ensinar o aluno com deficiência sobre sua própria condição, mas formar uma geração inteira mais consciente, empática e preparada para conviver com as diferenças. Inclusão de verdade é quando todos entendem, respeitam e participam não apenas quem vive a deficiência, mas principalmente quem convive com ela. Portanto, estamos falando de uma política educacional que olha para o futuro, que rompe com o isolamento de alunos com deficiência e promove um ensino mais justo, igualitário e humano para todos. E é isso que defendemos: uma escola verdadeiramente inclusiva, onde ninguém fique para trás.
JORNAL: O senhor tinha conhecimento de que centenas de kits comprados com recursos públicos estavam encalhados em escolas, pegando poeira, sem uso algum? Por que nada foi feito até que o escândalo explodisse?
CLAUDEMIR: Em nenhum momento os kits ficaram encalhados ou esquecidos nas escolas. Assim que os materiais chegaram, coincidentemente, o Governo do Estado propôs e iniciou a formação dos professores dentro do programa “Alfabetiza Juntos”, o que demandou da equipe pedagógica um foco temporário nessa nova diretriz estadual.
Inclusive, através desse programa, nosso município foi premiado como excelência educacional.
A Secretaria Municipal de Educação, de forma responsável, optou por atender à prioridade que nos era cobrada naquele momento pelo próprio Estado, que é nosso parceiro na educação. Passada essa etapa de alinhamento com o programa estadual, a distribuição e utilização dos kits seguiu normalmente, como já vem ocorrendo há algum tempo. Portanto, não houve omissão, nem desperdício. Houve planejamento, respeito às diretrizes educacionais e, principalmente, responsabilidade com os recursos públicos e com o futuro das nossas crianças.
JORNAL: O Ministério Público afirma que houve negligência grave e sem planejamento na compra desses materiais. O senhor concorda que sua gestão falhou na fiscalização e no controle desses gastos?
CLAUDEMIR: Não concordo com essa afirmação. A compra dos materiais foi fruto de um planejamento alinhado com as políticas públicas de inclusão, recomendadas por organismos nacionais e internacionais, como a própria ONU (organização das Nações Unidas) e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Ambos orientam e incentivam que os municípios avancem na construção de uma educação mais inclusiva, e foi exatamente isso que buscamos atender. Investimos em formação de professores, materiais adequados e ações pedagógicas que caminham nesse sentido. Não houve negligência, houve compromisso com a inclusão — algo que, infelizmente, ainda enfrenta resistência em muitos espaços. Respeito profundamente o trabalho do Ministério Público, mas é importante lembrar que o papel de planejar e executar políticas públicas é do gestor, eleito democraticamente para isso. O Ministério Público pode e deve fiscalizar, mas a condução da gestão compete ao Executivo. Seguimos tranquilos, conscientes de que agimos com responsabilidade, transparência e sempre com foco em garantir uma educação mais humana, acessível e inclusiva para todos os alunos da rede municipal.
JORNAL: A compra milionária desses kits foi feita enquanto professores reclamavam da falta de materiais básicos nas salas de aula. O que o senhor tem a dizer às famílias e aos profissionais que vivenciaram essa realidade?
CLAUDEMIR: Essa é uma questão que precisa ser esclarecida com responsabilidade. A realidade em relação aos materiais básicos nunca foi de negligência, mas sim de falha pontual de comunicação entre as 49 unidades escolares e a Secretaria de Educação. Temos um almoxarifado centralizado na própria Secretaria, com todos os materiais à disposição. O procedimento é simples: os gestores escolares fazem seus pedidos de acordo com a necessidade, e a equipe de logística realiza a separação e entrega diretamente nas unidades. De fato, houve um episódio em que um vídeo divulgado pelo vereador, Elias Ferrara levantou questionamentos sobre a falta de materiais. No dia seguinte, ele foi convidado a conhecer pessoalmente o almoxarifado da Secretaria e, após a visita, reconheceu que os materiais estavam ali disponíveis e prontos para serem entregues. Reforço que a gestão trabalha com planejamento, mas também com humildade para ouvir, corrigir falhas e melhorar. E é exatamente o que fizemos: após esse episódio, reforçamos os canais de comunicação com as escolas e melhoramos o fluxo de pedidos para garantir que nenhuma criança ou profissional da educação fique desassistido.
Além dessas questões citadas acima, temos os prazos licitatórios, onde é feito todo processo e na maioria das vezes, dependemos da logística das empresas vencedoras para entregar os produtos.
JORNAL: Sobre o caso da robótica: como o senhor explica o gasto de quase R$ 10 milhões anuais com um projeto em que, segundo o MP, “as crianças estão apenas brincando de LEGO”? Onde está o retorno pedagógico de tudo isso?
CLAUDEMIR: Antes de tudo, é importante esclarecer que o valor mencionado não corresponde à realidade: o gasto atual com o projeto de robótica gira em torno de R$ 5 milhões por ano, porém em 2024 o valor chegou a 7 milhões por conta da compra de reposição dos materiais, peças etc. o que representa aproximadamente 3% a 4% do orçamento da Educação em Leme. Trata-se de um investimento planejado, proporcional e que respeita os limites da responsabilidade fiscal. Esse projeto não começou na minha gestão. Ele foi implantado pelo ex-prefeito Wagão, entre 2017 e 2020 e foi ampliado em minha gestão com a mesma empresa que presta o serviço atualmente. Na época, fui totalmente favorável à iniciativa e continuo acreditando que a robótica é uma ferramenta pedagógica fundamental para o desenvolvimento das nossas crianças. Hoje, o projeto está alinhado à legislação federal, como a Lei nº 14.533/2023, que instituiu a Política Nacional de Educação Digital, e às diretrizes da BNCC - Computação, que torna o Pensamento Computacional e o Letramento Digital, componentes obrigatórios na educação básica. A robótica é uma das ferramentas indicadas nesse processo. Portanto, não se trata de “brincar de LEGO”. Estamos falando de um projeto com base legal e pedagógica sólida, que trabalha raciocínio lógico, criatividade, resolução de problemas, trabalho em equipe e pensamento computacional — habilidades essenciais no mundo atual e no mercado de trabalho do futuro. A educação de Leme está olhando para frente, investindo com responsabilidade e preparando nossos alunos para os desafios do século XXI.
JORNAL: Os contratos da robótica consumiriam 16% do orçamento da Educação em 2025, enquanto a cidade não cumpre metas básicas como o atendimento à pré-escola e creche. O senhor considera isso uma prioridade justa ou um erro grave de gestão?
CLAUDEMIR: Os percentuais mencionados não refletem os valores efetivamente executados. Em 2025, o investimento previsto no projeto de robótica representa cerca de 3% a 4% do orçamento total da Educação e está plenamente dentro da legalidade e do planejamento orçamentário aprovado. A expansão de vagas em creches e pré-escolas permanece entre as prioridades da gestão, com ações já em curso. O projeto de robótica não compete com essas metas, ele complementa o processo formativo, preparando os alunos para competências digitais exigidas pela nova legislação educacional brasileira. Estamos comprometidos com um ensino público equilibrado, que atenda tanto às demandas estruturais quanto à formação dos alunos para os desafios do século XXI.
JORNAL: A Excelentíssima Juíza do caso afirma que houve quebra da ordem de pagamento, descumprimento de pareceres técnicos e até pagamentos antecipados às empresas. Prefeito, o senhor autorizou essas irregularidades ou perdeu o controle da própria gestão?
CLAUDEMIR: Não houve nenhuma irregularidade comprovada na gestão ou nos contratos de robótica. As menções feitas no processo foram uma análise preliminar do Juízo de Primeira Instância e, sem a oitiva das partes contrárias, ou seja, sem o exercício do contraditório, até então. Tanto é que já houve recurso da referida decisão e o Tribunal da Segunda Instância suspendeu os efeitos da decisão proferida pelo Juízo de Primeira Instância. Todos os pagamentos seguiram a tramitação legal, com empenhos, notas fiscais e justificativas documentais. As contas municipais foram analisadas e aprovadas pelos órgãos de controle, incluindo o Tribunal de Contas. Nossa gestão tem total controle das ações administrativas e atua com base em pareceres técnicos e responsabilidade fiscal. Corrigir falhas pontuais é parte do compromisso com a boa gestão, e assim continuaremos fazendo.
JORNAL: O sócio da empresa contratada é irmão de uma ex-diretora geral da sua Secretaria de Educação, apontada por abuso de poder e favorecimento. O senhor sabia desse vínculo familiar e da possível existência de conflito de interesses?
CLAUDEMIR: A ex-diretora citada foi uma servidora de carreira, hoje se encontra aposentada, teve mais de 30 anos de atuação na educação municipal, tendo ocupado cargos relevantes em diversas gestões anteriores à minha. Teve cargo de confiança com outros prefeitos e sempre teve atuação técnica, com profundo conhecimento da rede. Durante sua passagem pela minha gestão, ela nunca atuou como gestora de contrato nem teve qualquer envolvimento com processos licitatórios relacionados à empresa em questão. Nunca houve qualquer ato de favorecimento por parte dela ao seu irmão, que é sócio da empresa. É fundamental separar o vínculo familiar da atuação técnica, sobretudo quando não há indícios de interferência direta ou benefício indevido. Sim, tive conhecimento do parentesco. Mas é importante lembrar que o contrato com essa empresa foi firmado ainda na gestão do ex-prefeito Wagão, entre 2017 e 2020, e eu apenas dei continuidade a um projeto que vinha sendo bem avaliado pela comunidade escolar. Reafirmo que nossa gestão preza pela legalidade, pela transparência e pelo interesse público em todas as suas ações.
JORNAL: A sua gestão ignorou alertas do Tribunal de Contas e pareceres da Auditoria Interna da Prefeitura. A cidade precisa saber: por que insistir nesses contratos mesmo diante de tantas advertências técnicas e legais?
CLAUDEMIR: Quando se trata do Tribunal de Contas, é fundamental deixar claro para a população que as contas da minha gestão referente aos anos de 2021 e 2022 foram devidamente aprovadas, com pareceres favoráveis. Inclusive, em 2022, técnicos do próprio Tribunal estiveram em Leme, visitando escola por escola, acompanhando de perto a execução dos projetos. É verdade que houve algumas ressalvas técnicas, o que é comum em qualquer gestão pública, mas todas já foram sanadas com responsabilidade e transparência. Reforço também que confio plenamente na minha equipe técnica, na auditoria interna, no corpo jurídico e nos pareceres da Procuradoria do Município. Todas as decisões foram tomadas com base em critérios legais e sempre visando o melhor para a educação das nossas crianças.
JORNAL: Por fim, prefeito, diante da enxurrada de denúncias, ações judiciais, suspensão de contratos e pedidos de devolução de milhões aos cofres públicos: o senhor acredita que sua gestão ainda tem credibilidade perante a população lemense?
CLAUDEMIR: Primeiramente, agradeço a você, Sandra, pelo espaço concedido, e aproveito para estender meus agradecimentos ao meu vice-prefeito Xuxu, ao presidente do meu partido, Wagão, aos vereadores que têm colaborado com a nossa gestão, aos secretários, aos servidores públicos e, especialmente, à população lemense, que nos enche de orgulho todos os dias. Leme caminha para seus 130 anos, e faremos questão de celebrar essa data com importantes entregas, como o Centro Municipal do Autismo, um marco para a inclusão na cidade, e ainda neste ano, o novo Ginásio Municipal de Esportes. Durante minha primeira gestão e nestes primeiros seis meses dessa nova gestão, recebemos diversas denúncias — muitas delas sem fundamento algum. Infelizmente, isso faz com que o Ministério Público, uma instituição séria e essencial, acabe tendo que interromper investigações importantes para apurar acusações infundadas. Mas é importante destacar que, dentre todas essas denúncias, 98% já foram arquivadas. E as mais recentes já estão sendo tratadas com seriedade pelo nosso corpo jurídico, que trabalha com total transparência e responsabilidade. Sobre a suspensão do contrato, vale esclarecer que a empresa já obteve na Justiça o direito de retomar as atividades. E em relação ao pedido de devolução de recursos, trata-se de um caso em Primeira Instância, onde está garantido o direito de defesa e contraditório. Os advogados da pessoa envolvida já estão atuando no processo, e tenho plena convicção de que ela irá provar sua inocência, pois é uma pessoa honesta e do bem. Respondendo de forma objetiva à sua pergunta: sim, acredito na credibilidade da minha gestão. Fui reeleito com quase o dobro de votos do meu oponente, uma figura respeitada da cidade. Isso mostra que a população reconhece o trabalho que estamos fazendo. E mesmo após o período eleitoral, continuo nas ruas, visitando os bairros, ouvindo a população, trabalhando diariamente. Já me disseram que parece que "eu ainda estou em campanha", mas eu acredito que o político tem que estar nas ruas, ouvindo críticas, sugestões e elogios — sempre perto do povo. É assim que governei e é assim que continuarei.
Agradeço novamente ao Jornal Tribuna de Leme e reafirmo: estou sempre aberto ao diálogo e aos esclarecimentos. Contem sempre comigo.