O LEÃO QUE VIROU GATINHO
Na política do interior, existe uma velha história e daquelas que ninguém sabe exatamente onde começa, mas que todo mundo parece conhecer.
Era uma vez um vereador que construiu sua imagem pública em torno da independência. Fiscalizava, visitava bairros, cobrava o prefeito, fazia discursos contundentes e dizia não ter medo de ninguém. Quando encontrava algo que considerava errado, subia à Tribuna, fazia barulho e, quando necessário, dizia até que levaria o caso aos órgãos de controle.
Era, segundo sua própria narrativa, um verdadeiro fiscal do povo e o trabalho verdadeiramente não parava.
Até que, em determinado momento, uma conversa de bastidores teria colocado esse personagem diante de uma situação delicada. O conteúdo, pelo que se comenta, poderia gerar interpretações pouco confortáveis.
Mas, a partir daí, veio a mudança: O vereador que antes rugia passou a falar mais baixo. As críticas diminuíram. As cobranças ficaram mais cuidadosas. O governo, que antes era alvo frequente de seus questionamentos, passou a receber uma postura muito mais amistosa.
E A PERGUNTA INEVITAVELMENTE APARECEU: O QUE MUDOU?
Porque, quando uma postura política muda radicalmente, a população tem o direito de perguntar se a realidade da cidade mudou ou se mudou apenas a relação entre quem fiscaliza e quem é fiscalizado. Dizem por aí, que uma tal gravação fez o tal vereador se calar. Parou de visitar as escolas, parou de cobrar contratos e passou a fazer fotos e acenos ao prefeito.
É claro que um vereador pode rever posições. Pode reconhecer acertos do Executivo, construir diálogo e até apoiar projetos que antes criticava. Isso faz parte da política.
O problema começa quando a independência que era apresentada como uma virtude desaparece sem uma explicação pública convincente.
A velha história do “leão que virou gatinho” serve justamente para provocar essa reflexão: será que a mudança aconteceu por que os problemas da cidade foram resolvidos ou por que, nos bastidores, surgiu algum motivo para evitar determinados enfrentamentos? Ou seria apenas medo dessa gravação vir a público?
No fim das contas, a política deveria funcionar de maneira simples: vereador fiscaliza, cobra, propõe e representa a população. Prefeito administra e presta contas.
E nenhum discurso de honestidade, independência ou coragem deveria depender do que pode ou não aparecer em uma gravação.
Porque reputação política não se sustenta apenas no que se fala diante das câmeras. Sustenta-se, principalmente, na coerência entre aquilo que se dizia ontem e aquilo que se faz hoje.