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FATOR DE RISCO PARA DEMÊNCIA: COMO PREVENIR A PERDA AUDITIVA?
Jornal Tribuna de Leme | 28/07/2026

FATOR DE RISCO PARA DEMÊNCIA: COMO PREVENIR A PERDA AUDITIVA?

Segundo diretriz recente da OMS - Organização Mundial da Saúde, 45% dos fatores de risco associados à demência são modificáveis e podem, portanto, ser prevenidos ou retardados. A perda auditiva é um deles. Embora nem sempre possa ser evitada, ela pode ser tratada, de forma a preservar a qualidade de vida do indivíduo. A OMS recomenda o uso de aparelhos auditivos para adultos com a condição.

A perda auditiva relacionada à idade, principalmente quando não é tratada por anos, está associada a maior risco de declínio cognitivo e demência, incluindo o Alzheimer.

“Os mecanismos não estão totalmente definidos, mas as hipóteses mais aceitas envolvem: sobrecarga cognitiva (o cérebro precisa fazer muito esforço para entender a fala), privação sensorial (menos estímulos sonoros para o cérebro) e isolamento social, todos fatores que podem acelerar o declínio cognitivo”, afirma Dr. Francis Gutierrez.

Sem tratamento, o problema pode ainda levar à ansiedade, depressão e prejuízos profissionais, além de contribuir para quedas e para o declínio funcional, o que compromete a autonomia da pessoa idosa.

Outra queixa importante é o zumbido, um sintoma frequentemente decorrente da própria perda auditiva. “Ele não é considerado, isoladamente, um causador de demência, mas aparecem no mesmo contexto de perda auditiva não tratada e comorbidades como ansiedade, insônia e depressão”, explica o médico.

O que causa a perda auditiva? O especialista diz que as causas da perda auditiva variam conforme a idade. Em crianças, as principais são infecções de ouvido, fatores genéticos e algumas infecções adquiridas na gestação. Em jovens e adultos, o grande vilão é o ruído, especialmente pela exposição excessiva a fones de ouvido em volume alto e ambientes de trabalho barulhentos.

“Nos idosos, o principal fator é o envelhecimento natural do sistema auditivo, agravado por doenças como diabetes e hipertensão, e por toda uma vida de exposição ao ruído”, relata. A perda auditiva pode surgir em qualquer idade, mas se torna mais frequente depois dos 60 anos.

O que fazer para prevenir a perda auditiva? Ao longo da vida, diversos cuidados contribuem para a prevenção da perda auditiva. O especialista elenca os principais:

- proteção contra ruído: usar protetores auriculares em ambientes de trabalho ruidosos, shows, ensaios musicais, ferramentas ou máquinas barulhentas, além de evitar exposição prolongada a volumes elevados;

- controle de volume e tempo de fones de ouvido: limitar o volume (regra prática: se outra pessoa ouve o som dos seus fones, está alto demais) e evitar o uso contínuo dos dispositivos por muitas horas seguidas;

- cuidado com medicamentos: evitar a automedicação, especialmente com drogas potencialmente ototóxicas (certos antibióticos, diuréticos, quimioterápicos), seguindo sempre a orientação médica;

- controle de fatores cardiovasculares e metabólicos: tratar hipertensão, diabetes, dislipidemia (colesterol alto) e obesidade e suspender o tabagismo, pois esses fatores estão associados a maior risco de perda auditiva por comprometimento vascular da cóclea (estrutura do ouvido responsável pela audição);

- check-ups auditivos periódicos: especialmente a partir dos 50 a 60 anos, ou antes em pessoas com exposição a ruído ou história familiar importante, para detectar e  intervir precocemente em caso de alterações.

De acordo com o otorrinolaringologista, a maioria das recomendações vale também para a prevenção do zumbido, porque uma das causas mais frequentes do problema é justamente a perda auditiva induzida por idade, ruído e fatores metabólicos. Além disso, somam-se medidas como higiene do sono, manejo do estresse, redução de cafeína e álcool em excesso e evitar silêncio absoluto prolongado (sons ambientais suaves podem diminuir a percepção do zumbido em indivíduos predispostos).

“Não conseguimos impedir todo tipo de perda auditiva, porque há fatores genéticos e doenças que fogem ao nosso controle; mas, ao longo da vida, proteger-se do ruído, cuidar da saúde do coração, evitar automedicação e fazer check-ups da audição reduzem o risco de perda auditiva e de muitos casos de zumbido”, destaca Gutierrez.

Como saber se a pessoa está com dificuldade para ouvir? Em idosos com perda auditiva, é comum que os familiares observem o problema antes do próprio paciente. Para isso, é importante atentar aos seguintes sinais de alerta:

- aumentar de forma repetida o volume da TV, rádio ou celular, até incomodar os demais;

- pedir que repitam com frequência (perguntas como “hã?” ou “o quê?”), especialmente em ambientes com ruído de fundo ou conversas em grupo;

- relatar que “escuta, mas não entende” quando várias pessoas falam ou quando a fala é rápida;

- ter dificuldade para acompanhar conversa ao telefone ou para entender vozes agudas (como de mulheres e crianças);

- passar a evitar encontros sociais, falar menos em reuniões de família, aparentar distração ou desatenção em rodas de conversa;

- queixar-se de zumbido (barulho no ouvido) associado a qualquer um desses sinais.

Ao abordar o assunto, o especialista recomenda evitar a culpabilização ou o confronto direto e usar linguagem inclusiva, com frases como “nós percebemos”, “estamos preocupados com a sua saúde”, em vez de “você não escuta nada”. Também é importante normalizar a condição, destacando que atualmente existem opções de tratamento mais discretas e eficazes do que no passado.  “Propor inicialmente uma avaliação, não um aparelho: ‘vamos marcar uma consulta com o otorrino para conferir como está sua audição’, deixando a discussão sobre o aparelho para depois da avaliação”, completa.

Tratamento da perda auditiva: O tratamento passa por causas reversíveis, quando presentes: cerúmen impactado, otites, alterações de pressão ou ventilação da orelha média, ajuste de medicamentos potencialmente ototóxicos, controle de fatores metabólicos e vasculares.

Em outros casos, recomendam-se os aparelhos auditivos ajustados ao perfil audiológico e às necessidades do idoso (mesmo pessoas com perdas leves podem se beneficiar do uso, destaca o médico), além de treinamento auditivo e estratégias de comunicação.

Em perdas severas ou profundas com pouco benefício de aparelhos, ele diz que é preciso considerar tecnologias como o implante coclear.

“Na maioria dos casos, não falamos em ‘curar’ a perda auditiva, e sim em dar ao cérebro o máximo de som útil possível, com conforto. Isso ajuda a diminuir o esforço para ouvir, reduzir o incômodo do zumbido e melhorar a qualidade de vida”, conclui Gutierrez.

Por Maiara Ribeiro – Portal Dr. Drauzio Varella